segunda-feira, 10 de maio de 2010

O QUE É UM REPÓRTER ?

Dicionário das profissões : O que é um repórter ? É aquele ser bípede que ganha um salário para se intrometer na vida dos outros

Por Geneton Moraes Neto

Jornalista adora contar vantagem. Se ele se levar cem por cento a sério, deve ser internado. Se não se levar, deve ser lido ( ou visto ou ouvido, se for o caso).

Feitas as apresentações, convido-vos ao próximo parágrafo.

Repórter é aquele ser bípede que ganha um salário para se intrometer na vida dos outros. Ou para perguntar o que o entrevistado preferiria não responder. Não há exceção a esta regra. Quando vira “amigo” da celebridade, o repórter se anula. Transforma-se em uma entidade não-jornalística.

Uma das primeiras vacinas que o jornalista deve tomar, já no início da carreira, é a AD : anti-deslumbramento. Assim, ele aprenderá que estar próximo não é ser íntimo. Nunca.

O fato de eventualmente conviver com quem é de fato importante e célebre, como presidentes, astros, estrelas, gênios e sumidades, não faz do repórter um integrante desta corte. Pelo contrário. Desde que adote este mandamento como mantra, o repórter estará tecnicamente liberado para contar vantagem à vontade. É o que farei agora.

Feitas as ressalvas, intimo-os ao próximo parágrafo.

Já passei uma hora trancado numa suíte de um hotel em Londres com Woody Allen – que me confessou: “Quero a imortalidade é no meu apartamento, não no meu trabalho!”.

Fui convidado pelo primeiro baterista dos Beatles, Pete Best, para tomar uma cerveja pós-entrevista num pub em frente ao Cavern Club, em Liverpool, em companhia do cinegrafista Paulo Pimentel. Pensei: “Beatlemaníacos dariam a mão direita para estar no nosso lugar”.

Ouvi a viúva mais famosa do mundo, Yoko Ono, soltar uma suspiro desolado, ao ver uma foto em que aparecia ao lado de John Lennon diante do Edifício Dakota.

Vi a Dama de Ferro, a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, me fitar com olhos gelidamente azuis para dizer que não, não iria atender ao pedido que eu fizera a ela: que tal se, num exercício de autoavaliação instantânea, ela escolhesse entre todas as palavras apenas uma, capaz de definí-la?

Vi de perto a cabeleira de um velho ídolo, Paul McCartney, o meu Beatle favorito: a juba tinha levado uma tintura, com certeza. O tom da pele do rosto era ligeiramente esquisito: tinha levado uma camada de pó. Não consegui articular uma pergunta. Os seguranças o cercaram.

Vi um Chico Buarque jovem e nervoso virar um copo de uísque nos bastidores do Teatro Santa Isabel, no Recife, em busca de coragem para encarar a platéia.

Vi o Rei Roberto Carlos pedindo à nossa equipe que não, não gravasse imagens de uma santa que reinava em cima de uma pequena penteadeira no camarim.

Vi Pelé caminhar anônimo pela Quinta Avenida, em Nova Iorque, por apenas dezesseis segundos – tempo suficiente para ser reconhecido por um africano e, em seguida, por uma multidão que causou um tumulto na calçada.

Vi o ex-presidente Fernando Collor acompanhar nossa equipe até o automóvel, no pátio de uma estação de televisão em Maceió, num gesto que não lembrava em nada o político de ar empertigado dos tempos em que desfilava pela rampa do Palácio. Durante o caminho, foi falando com saudade da finada revista “Realidade”.

Vi um Glauber Rocha meio inchado, com cara de sono, desfilar pelo saguão de um cineminha num subúrbio de Paris com uma cópia do último filme que fez, “A Idade da Terra”. Queria mostrar a críticos franceses.

Vi Paulo Francis se divertir feito criança com a história de que um embaixador brasileiro teria feito uma nova “opção sexual” depois de velho.

Vi o rosto sereno do Carlos Drummond de Andrade morto : em vida, era o homem mais discreto do planeta. Inerte, no caixão, tinha o rosto bombardeado por flashes. Fiquei pensando no absurdo da situação.

Vi Ulysses Guimarães, à época comandante da oposição política ao regime militar, me soprar no ouvido uma frase que não sei se era uma queixa ou um cumprimento : “Você disparou um petardo!”. O velho combatente de olhos azuis reclamava de que eu o “forçara” a se pronunciar sobre a morte de um operário nos porões do Exército, em São Paulo, num momento em que ele, raposa, ainda não tinha recebido informações concretas sobre o caso.

Vi, num momento especialíssimo, o ar contrito do homem que, para o bem e para o mal, mudou a história do Século XX: depois de votar na primeira eleição para presidente realizada na história da Rússia, Mikail Gorbachev caminhou, cabisbaixo, por uma alameda, em direção a um portão de ferro, num subúrbio de Moscou. O homem que comandou uma superpotência vivia, ali, um momento de intensa solidão. Um observador rigoroso flagraria, nas feições de Gorbachev, aquela “dor atônita dirigida contra todo o ordenamento das coisas” que o Dom Fabrizio de “O Leopardo” notou no olhar de um coelho abatido.

O rosto de Gorbachev exibia um ar grave, enquanto ele caminhava, silente, com o olhar voltado para o chão. Em que estaria pensando? Um mundo desabava ali – não com um estrondo nem com um suspiro, como poderia imaginar o poeta, mas com um silêncio enigmático.

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