segunda-feira, 31 de maio de 2010

IMIGRAÇÃO ILEGAL NO BRASIL A PARTIR DO ACRE

Polícia Federal revela que imigrantes usam fronteira com o Peru para entrar ilegalmente no país


Correio Brasiliense


A devastação causada pelo terremoto de janeiro passado no Haiti criou uma nova rota de imigração ilegal de moradores da ilha caribenha para o Brasil. Além da entrada clandestina de crianças, revelada esta semana pelo Juizado da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo, a Polícia Federal (PF) descobriu que haitianos estão utilizando a fronteira do Acre com o Peru para chegar ao país.

Para isso, os imigrantes irregulares contam com a ajuda de coiotes brasileiros baseados na cidade de Assis Brasil (AC), por onde também entram dezenas de outros estrangeiros.

A descoberta da rota de fuga, pela Polícia Federal, ocorreu por acaso. No mês passado, quatro haitianos foram presos em Assis Brasil -- a 310 km de Rio Branco --, quando procuravam informações sobre imigração em território brasileiro. A PF decidiu investigar a procedência do grupo e detectou que eles contrataram um taxista da cidade para chegar à capital acreana. Para isso, cada um pagou US$ 600. Os investigadores revelaram que não são os primeiros haitianos a entrarem ilegalmente no país, depois do terremoto que causou uma das maiores tragédias já vividas pelo Haiti.

Os imigrantes ilegais deixam Porto Príncipe de navios e atravessam o Mar do Caribe até chegarem ao Panamá. De lá, seguem para o Equador e depois para o Peru. Dos portos de Lima, os grupos seguem de ônibus para o Brasil ou ficam em território peruano em busca de melhores condições de vida. “O destino, preferencialmente no Brasil, é chegar até Assis Brasil, de onde seguem para outras regiões”, afirma o delegado Flávio Avelar, chefe da Delegacia de Migração da Superintendência da PF no Acre.

Pelo menos outra dezena de haitianos devem ter entrado no Brasil sem o visto de permanência. A Polícia Federal acredita que, a cada dia, o uso da rota vai aumentar, ainda em consequência da catástrofe humanitária provocada pelo terremoto(1). Antes, o caminho era utilizado por chineses que entravam no país em direção a São Paulo, onde integravam outros grupos também clandestinos que trabalham na comercialização de contrabando. “Não temos informações de que os chineses continuam entrando no país pela fronteira”, diz Avelar.

Deportação - Pela lei brasileira, os haitianos deveriam ser deportados, a partir do momento em que entraram ilegalmente no país. No entanto, a medida não será adotada pela Polícia Federal. Todos os detidos foram liberados após os depoimentos e aconselhados a procurarem o Conselho Nacional de Refugiados (Conare). “Além de tudo, é uma questão humanitária. Eles deixaram o Haiti por causa do terremoto e podem ficar no Brasil como refugiados”, explica o policial. Na quinta-feira, o coordenador do Juizado da Infância e Juventude da Justiça de São Paulo, desembargador Antônio Carlos Malheiros, revelou que crianças haitianas estão sendo introduzidas no país por meio da Guiana.

As suspeitas começaram depois que uma criança ter sido encontrado na Zona Leste de São Paulo. O menino, de 11 anos, estava sozinho em uma estação de metrô e foi levado para um abrigo. Segundo Malheiros, as causas da entrada ilegal dos menores no país ainda não estão definidas. “Não sabemos qual é o motivo desse tráfico”, diz o desembargador, observando que as razões podem ser adoção, exploração sexual, trabalho escravo ou tráfico de órgãos.

Tragédia sem precedentes - O terremoto de magnitude 7 na escala Richter atingiu o Haiti em 12 de janeiro, destruindo parte do país, considerado o mais pobre das Américas. A catástrofe deixou pelo menos 200 mil mortos e centenas de milhares de pessoas feridas. Entre os que sucumbiram ante a tragédia, estavam vários brasileiros: o segundo homem da Organização das Nações Unidas (ONU) no país, Luiz Carlos Costa, a coordenadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, e 18 militares que serviam na missão de paz internacional, além do tenente da Polícia Militar do Distrito Federal, Cleiton Batista Neiva, que prestava serviços como civil à ONU.

Chegada pelo Acre - A prisão de dois coiotes em Assis Brasil, há duas semanas, comprovou que o Acre virou uma porta de entrada de imigrantes ilegais no Brasil. Além dos haitianos, indianos, marroquinos, turcos, libaneses e outros latino-americanos têm sido flagrados em ações da Polícia Federal. No início do mês, a PF descobriu que o trânsito fácil pelo Peru torna a nova rota um atrativo para estrangeiros que pretendem imigrar irregularmente e trabalhar no Brasil, principalmente em São Paulo. No ano passado, uma operação realizada no estado, em Rondônia e na capital paulista desarticulou uma quadrilha de exploração de ilegais.

No último dia 7, a PF prendeu oito imigrantes ilegais de Bangladesh, cujo destino final era São Paulo. Eles pagaram R$ 800 a um taxista para serem transportados de Assis Brasil — na fronteira do Acre com o Peru — para a capital paulista, onde já encontrariam emprego. O grupo seria introduzido no Brasil por um coiote contratado em Rio Branco por um bengali que morava no país e era casado com uma brasileira. A operação não deu certo e os estrangeiros ficaram retidos na PF e, depois, deportados.

Menor policiamento - A rota é quase a mesma que os haitianos ilegais utilizam. Os estrangeiros cruzam o Mar do Caribe, atravessam o Panamá e entram no Peru via Equador. Depois, também de ônibus, chegam ao Acre por Assis Brasil, Brasileia e Epitaciolândia. A primeira cidade é a preferida, já que o número de policiais federais é menor. Muitos imigrantes ilegais usam ainda a Bolívia. Eles ficam em Cobija, na fronteira dos dois países, e depois cruzam para o Brasil, quando a fiscalização está relaxada.


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