quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

PRA ONDE FOI O DINHEIRO?

Líder comunitário mostra como estão os ramais de Rio Branco e questiona o uso do dinheiro público. Famílias que moram na localidade Panorama sonham com investimentos do poder público na melhoria de vida de quem mora no campo

O casal Lélia Gomes do Nascimento, 79, e Vitor Alexandre, 90, dedicaram uma vida inteira a agricultura familiar para subsistência, hoje os filhos fazem o trabalho que os pais ensinaram. Mas continuam enfrentando as mesmas dificuldades de antes, como por exemplo, a falta de políticas públicas no campo que deveriam ser promovidas pelos governos.

Dona Lélia e seu Vitor (foto ao lado) construíram uma vida à margem direita do Rio Acre, justamente no ramal Beira Rio dentro do bairro Belo Jardim I, na comunidade ribeirinha Panorama localizado a menos de trinta minutos de Rio Branco, onde vivem centenas de famílias. O casal cresceu ouvindo a lenda do “poço da cobra”, como ficou denominada popularmente a curva do rio onde eles fixaram residência. Do alto do barranco, olhando para o rio, a aposentada Lélia conta que uma cobra grande aparecia e sumia no meio do rio para pescadores e moradores, a história também servia para os pais disciplinar os filhos nas tarefas domésticas, e todos juram que o conto é verídico. Vitor e Lélia, hoje estão bastante fragilizados, inclusive por doenças, mas contam que nunca tiveram oportunidade de escoar a produção pelo ramal Beira Rio, que passa na frente da casa deles, se queriam ganhar dinheiro e não deixar nada estragar o jeito era colocar tudo no barco e comercializar na cidade. Nem por isso desanimaram e pensaram em mudar do locar, hoje eles criam pequenos animais, o trabalho mais braçal é responsabilidade dos mais jovens. “Esse ramal poderia ter nos ajudado muitos, teve bastante político que veio aqui prometendo isso e aquilo pra gente, eu nunca acreditei, mas também não perdia as esperanças. Eu acho que agora estou bem velha e talvez eu morra e não veja meus filhos saindo pra cidade de carro, de moto, na carroça levando o que a gente planta pra vender”, reclama dona Lélia Gomes.

A melhoria de vida que dona Lélia sonhou pra facilitar a sobrevivência, é uma das maiores bandeiras de luta de José Carlos Mendes da Silva, mais conhecido como “gordo”, mas na verdade é um homem alto, magro e de estatura mediana; o codinome herdou de uma brincadeira dos amigos que se consolidou com os pais. José Carlos é um cidadão incansável, destemido e apolítico. Ele preside a Associação dos Produtores Rurais do Panorama Ribeirinhos, onde estão filiados 32 sócios efetivos. A localidade Panorama parece que parou no tempo, apesar de estar cercada por bairros e dentro da jurisdição riobranquense; fica no entorno dos bairros Belo Jardim e São Francisco. Do lado que José Carlos cuida, o êxodo rural já expulsou muita gente e quem não se adaptou tenta recomeçar. “Aqui é bom de morar 10 vezes, mas muita gente fugiu pra cidade já que não tinha apoio dos governos”, diz José. A agricultura familiar é o forte da comunidade: mandioca, milho, banana, pimenta cheirosa, maxixe, quiabo são fartos em duas épocas distintas no ano. Os piscicultores colocam por ano mais de 40 toneladas de peixe nos mercados da capital. Mas o presidente da associação, conta que, “há mais de três anos, venho implorando mais investimentos e melhorias pra gente. Além de não ser atendido, ninguém dá importância”.

Os problemas dos moradores são muitos. Foram três anos de lutas para conseguir energia elétrica para a comunidade, mesmo assim o fornecimento ainda é precário. A localidade tem de saúde funcionando, tem escola, policiamento e apresenta índices baixos de violência. Os moradores mais antigos não conseguem provar que são donos das terras para requisitar aposentadorias, por exemplo. José diz que existem pessoas com doenças como hanseníase, que nunca receberam uma bolsa auxílio do governo, porque não tem documento comprovando que as propriedades são deles. Sem reconhecimento das propriedades, as famílias também não conseguem linhas de crédito para fomento das suas cultura. “Também, não existe tentativas de regularizar nossa situação, ninguém se preocupa e dar importância pra isso, estamos abandonados”, diz em tom de protesto o líder comunitário.

José Carlos conta que, “as famílias com a proibição de queima desistiram do roçado e ficaram esperando a mecanização agrícola prometida pela prefeitura de Rio Branco. E não veio, o que chegou aqui estava prejudicando nosso solo e comprometendo a produção. Dos 12 sócios que seriam contemplados pela mecanização, 8 desistiram porque as técnicas não agradaram”, explica Carlos. O programa de açudagem também não contemplou maioria. Se tivesse estruturado o ramal Beira Rio, em menos de 20 minutos os moradores estariam na estrada do Quixadá, dando acesso a sede do município. O presidente da associação, conta que foi prometida pela prefeitura a melhoria de 6 km do ramal, ele guarda documentos que mostram o cronograma de trabalhos, “mas na verdade jogaram as máquinas lá dentro e não fizeram nada, nem piçarra tem, imagine bueiros, eles só fizeram rasgar a mata”, afirma José Carlos. O ramal inicia no igarapé Judia, o município pavimentou menos de 2 km até agora e prometeu construir mais 6 km, mas na verdade cerca de 5 km não receberam nenhum investimento ainda, é justamente esse trecho inexistente que os moradores apelam para serem concluídos, já que no período de estiagem, fica difícil navegar pelos rios. As histórias de colheita estragada são muitas, os moradores fazem questão de afirmar que já perderam muito dinheiro por conta deste isolamento.

Nossa reportagem percorreu de uma ponta a outra o ramal em questão, enfrentando sol forte, é praticamente uma tarde inteira de caminhada. A comprovação é de que não existe ramal, mas sim, uma picada no meio da mata por onde passa apenas carroça puxada por bois e com dificuldades. A vegetação cobre a estrada de um lado a outro, no inverno os lagos e igarapés transbordam e muita gente fica ilhada. Neste varadouro, também é por onde as famílias tentam se deslocar apesar dos riscos (ataque de animais, escuro à noite, usuários de drogas e criminosos se escondem) para chegar a escolas, postos de saúde e na cidade. Em alguns trechos, onde deveriam existir pontes, os moradores são obrigados a ter equilíbrio de trapezista para caminhar em pedaços de madeira estragados na tentativa de ultrapassar os afluentes. “A nossa duvida é pra onde foi o dinheiro do nosso ramal? isso eu queria saber, por que até agora não fizeram nada e por isso vamos continuar implorando sem se cansar para que mude essa situação”, afirma José.

RESPOSTA DOS GESTORES PÚBLICOS De acordo com informações de Nilton Luiz Cosson Motta, Secretário de Estado de Extensão Agro-florestal e Produção Familiar – SEAPROF, o governo já ultrapassou os investimentos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento para o setor agrário (PAC Agrário). A promessa era de investir R$ 100 milhões até 2010, seriam cerca de R$ 25 milhões de recursos na zona rural por ano em todo estado, mas segundo Cosson, os números são bem maiores.

“Dos R$ 25 milhões que prometemos investir em crédito para o homem do campo, já colocamos nas mãos deles R$ 22 milhões somente este ano. De ramais só em Rio Branco em 2010, já empregamos R$ 50 milhões. E temos R$ 20.800 milhões firmados em contratos por meio do Programa Nacional de Agricultura Familiar – PRONAF. Então, aplicamos mais do que nós comprometemos”, enfatiza o Secretário. Dinheiro que pelas as histórias dos moradores, não chegou à comunidade Panorama.

O repórter 24 horas, tentou por diversas vezes manter contato com Mário Jorge da Silva Fadell, Secretário de Agricultura e Floresta de Rio Branco (SAFRA), mas não foi possível indagar o gestor sobre a precariedade dos investimentos na comunidade Panorama. Enquanto isso os sonhos permanecem nas famílias que moral no local e José Carlos, continua sua luta para que o dinheiro público beneficie quem realmente precisa: os trabalhadores rurais.

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