terça-feira, 22 de maio de 2007

Enriquecimento ilícito, caminho aberto no Juruá.

Sem barreiras para os traficantes. A região conhecida como rota internacional para o tráfico de drogas permanece desprotegida. O órgão competente, ou seja, a Polícia Federal tem um efetivo reduzido. Parte dos agentes se dedica as atividades de investigação na delegacia localizada na cidade de Cruzeiro do Sul, há 680 km de Rio Branco, capital do Acre. O restante trabalha nas bases de fiscalização às margens dos rios Juruá e Môa entre os municípios de Mâncio Lima, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo. Cidades localizadas na fronteira com o Peru, alvo constante da ação de madeireiros e traficantes vindos do país vizinho. Apreensões de carne de animais silvestres, pasta à base de cocaína e madeira nobre retirada das terras indígenas sem autorização, sãos os crimes mais comuns nesta região. A falta de tecnologia, recursos humanos e um serviço de inteligência efetivo além de uma relação diplomática com os peruanos facilita as invasões e o narcotráfico. O governo através do IBAMA e das policias federal, civil, militar e exército parecem impotentes diante da situação.

Como se não bastasse tudo isso, agora está mais fácil embarcar no aeroporto internacional da cidade de Cruzeiro do Sul com qualquer tipo de droga, espécies da fauna brasileira ou outros carregamentos disfarçados na bagagem. Alguns viajantes até estranham a ausência de detectores de metais na porta de entrada e a falta dos computadores com equipamentos que facilitam ver o interior das malas sem precisar abrir. Apenas três funcionários da INFRAERO recolhem os cartões de embarque. São servidores que não foram treinados e nem tem autorização para identificar e prender os suspeitos. Diariamente o aeroporto da cidade registra dezenas de vôos comerciais e particulares. A ausência de fiscalização parece ser um atrativo para quem passa por ali. Em determinadas temporadas os hotéis apresentam um crescimento recorde no número de turistas que chegam de todos os cantos do mundo interessados nas belezas naturais. O que eles costumam levar como lembrancinha do lugar, ninguém sabe, o caminho é aberto para a biopirataria. Partindo da cidade a próxima conexão de avião pode ser Rio Branco, Porto Velho em Rondônia ou Manaus no Amazonas, onde a situação parece ser bem diferente; policiais federais revistam as bagagens e conversam com os passageiros.

A cidade de Cruzeiro do Sul é conhecida como a capital do vale do Juruá, uma referência ao maior rio de águas doce e principal meio de transporte para ribeirinhos, extrativistas, seringueiros e indígenas. Não existem rodovias para chegar aos estados vizinhos. O jeito é recorrer ao único vôo diário. Pelo rio Juruá corre as enormes balsas, nome dado as embarcações de grande porte que chegam à cidade com freqüência durante o período de cheia trazendo combustíveis, alimentos, materiais de construção e levam entre outros produtos a conhecida farinha de mandioca para outras capitais. Toneladas partem da cidade todos os meses, é impressionante! Este ano agentes da Polícia Federal apreenderam um grande carregamento de pasta a base de cocaína dentro de vários sacos de farinha com destino ao Amazonas, tudo seria transportado por meio de balsas. A fiscalização nos portos ainda é tímida, mas a receita estadual contabiliza apreensões de caixas de cerveja e outras mercadorias transportadas de maneira irregular. Para fugir do bloqueio, os contrabandistas descobriram uma zona livre, trata – se da cidade vizinha, Guajará no Amazonas. Utilizam rios e as estradas para chegar de maneira mais fácil com os carregamentos em Cruzeiro e sonegar impostos.

Fato ou não, a cidade é considerada a capital nacional da inflação em virtude do aumento exagerado dos preços. Isso conseqüentemente causa perda do poder aquisitivo do povo. A concentração de riquezas e o enriquecimento ilícito têm base no isolamento geográfico, tráfico de drogas, sonegação de impostos e mau uso dos recursos públicos. Um atraso para os moradores, mais a oportunidade que faltava para alguns empreendedores se instalar e ganhar bastante dinheiro. E não existe interesse para esconder a mina de ouro. A frota de veículos de luxo circulando pelas ruas da cidade causa inveja para um lugar considerado pequeno, isolado e pobre. Na área mais afastada, conhecida como boca da Alemanha, mansões são erguidas em meio à floresta, sem contar no desmatamento provocado pelos grandes latifundiários. Não estranhe se alguém comentar que os barões do Juruá financiam campanhas políticas no estado somente para não ver de perto a BR-364 asfaltada. Tudo isso em troca de apoio político, licitações e obras. Mais parecem um jogo de cartas marcadas. A rodovia federal liga o estado de uma ponta à outra, mas continua sem pavimentação. Sua reabertura durante o verão traz conforto para uns e projeção política para outros, quando passa essa temporada, o sofrimento dos habitantes retorna. Enquanto isso, por muitos outros biênios os eleitores vão continuar ouvindo promessas de conclusão da tão sonhada rodovia. Fazer o trecho acreano da estrada para o pacífico parece ter sido mais fácil e rápido do que se pensava. Afinal de contas os interesses eram menores. O silêncio dos órgãos públicos de fiscalização da justiça e controle do dinheiro público do estado, diante de tudo isso, é questionado pela população.